A qualidade dos Ingredientes

Por Paulo Lima

Existiu (ou ainda existe, talvez) um folclore no Brasil afirmando que “Caipirinha boa tem de ser feita com cachaça vagabunda!” A frase é tão folclórica e factível quanto “nana, neném, que a Cuca vem pegar...” A verdade é que toda receita fica melhor se você usar ingredientes de boa qualidade.

Uma caipirinha será sempre superior quando feita com uma cachaça bem destilada, em vez de uma bebida obtida por meio de processos químicos – da mesma forma que um espaguete ao sugo ficará melhor com tomates frescos bem selecionados e alho picado na hora do que com um molho de lata industrializado.

O melhor possível, é obvio, também tem a ver com a possibilidade financeira de se adquirir determinados produtos e, no caso de um bar, com o preço final de venda do coquetel.

Esse dilema nos veio à cabeça quando chegou às nossas mãos uma garrafa da nova safra do Campari Cask Tales, uma edição especial do clássico bitters aperitivo, que foi limitada a 1.500 garrafas. Produzido em Milão, esse Campari especialíssimo tem finalização em barris de Bourbon, dando origem a um paladar ligeiramente frutado e defumado. É envasado numa luxuosa garrafa, daquelas que embelezam qualquer prateleira.

Esse ingrediente raro e especial nos instigou a tentar um Negroni superpremium, misturando-o com outros itens do mesmo calibre. A tentativa foi:

THE ULTIMATE NEGRONI

  • 30 ml Campari Cask Tales
  • 30 ml Carpano Antica Formula
  • 30 ml Tanqueray nº 10

Infelizmente – ou melhor, felizmente – não é disso que se trata a coquetelaria. A arte definitivamente não está em empilhar ingredientes caros e exclusivos. O resultado foi um Negroni completamente desbalanceado. As notas sutis do Cask Tales esvaneceram, o amargor agradável e a baunilha do Antica murcharam e o Ten ficou totalmente besta, perdido. Enfim, ninguém casou com ninguém.

De fato, a melhor maneira de apreciar o Campari Cask Tales em sua plenitude é preparar um Shakerato – o que consiste em bater o aperitivo numa coqueteleira com gelo, verter para uma taça Martini bem gelada e adicionar um twist de casca de laranja, simples assim.

O Tanqueray Ten dá ótimos Martinis e um excelente Gin Tônica quando acompanhado de uma fatia de grapefruit. Recomendo. 

O Carpano Antica Formula prefiro tomar gelado, neat, numa pequena taça de cristal. Dos três itens, é o que escolheria para turbinar um Negroni, misturado com o Campari comum e um bom London Dry Gin – meu coração bate pelo Atlantis.

O imaginado The Ultimate Negroni é uma brincadeira cara, exorbitante, sem sentido. Tente ir às compras para executar a receita: no mercado, uma garrafa de Tanqueray Ten custa em torno de R$ 200,00 e a de Antica Formula não sai por menos de R$ 350,00. Fora que você tem de correr atrás de uma das garrafas remanescentes de Cask Tales e, se ainda houver alguma, desembolsar mais R$ 300,00. A lista de compras soma R$ 850,00. Ou seja, delírio, meu!

O bom senso é o principal ingrediente da boa coquetelaria. Cada item de uma receita deve ser escolhido meticulosamente, entendendo e respeitando suas características. Gin não é tudo igual, vermute não é tudo igual, assim como as vodcas, os whiskies, os runs, os licores etc. As bebidas devem ser utilizadas em quantidades precisas. Já o bom senso, sem moderação.